Apresentação
Nora abandona o marido, filhos e casa, de pois de uma luta de vida e de morte contra o tempo: o tempo em que vive e os preconceitos que dele emanam; o pouco tempo que tem para restituir à ordem à casa, ao casamento; o nosso tempo, quando olhamos para ela como quem vê o limite de nosso próprio tempo. O mundo do trabalho, do dinheiro, a idéia do casamento como formalização/redução do amor, a figura da mulher numa sociedade regida pelo gesto do homem – “o amor a crédito”, metáfora da nossa sociabilidade.
Começamos pelo fim, e voltamos ao início, como quem tenta verificar as causas do desfecho. Assim, a história é contada com um procedimento de reversibilidade, em que as cenas do texto de Ibsen são recolocadas, da última à primeira, de maneira que uma nos devolve à outra que em sentido dramático lhe teria dado origem, e que, no entanto, reaparece agora, como que explicitando os mecanismos do que lhe veio antes.
A primeira versão deste espetáculo estreou em 2005, em temporada no Teatro Fábrica São Paulo. Ela implicou naquele momento um aprofundamento poético no trabalho do grupo, que tirou, de seu confronto com um texto clássico, a disposição aberta para o jogo e uma lida com a palavra que significaram sobretudo a experiência da explosão de uma dramaturgia clássica, a partir de um texto de fundo realista, com uma discussão cuja atualidade se percebia na possibilidade de um deslocamento. De um lado, um problema para o trabalho dos atores, que teriam que dar conta de um estado de atuação que lhes garantisse fidelidade, porém não repetição às questões “ibsenianas”.
De outro lado, uma cena que teria de se repensar, deslocando a idéia de realismo como representação ao propor a idéia de jogo. Isso sugeriu algo como uma desconstrução dramatúrgica, mas que tinha como ponto de partida a pergunta: mais de 100 anos depois, Nora saiu de casa, e o que mudou? A pergunta, posta em jogo, e aberta à platéia, norteava a dinâmica da cena.
Isso nos levou a uma inversão radical da perspectiva ibseniana, levada a cabo até mesmo na inversão da estrutura do texto. Então, face àquela mulher que pensa como um gerente de banco e àqueles homens que não são capazes de ir além do seu mundo do dinheiro e do desejo fetichizado, que afetividade se produz?A pergunta pela afetividade não esvazia a discussão em Ibsen, mas a redimensiona.
O mundo do trabalho, do dinheiro, a idéia do casamento como formalização/redução do amor, a figura da mulher, são retomados agora nessa discussão do que chamamos de amor a crédito. O crédito como condição e limite, metáfora da sociabilidade nossa. Essa, a Nossa Casa de Boneca.Exatamente por isso, a proposição do espetáculo neste momento se dá quando o grupo, quase cinco anos depois, retoma seu repertório, sedimentando não apenas procedimentos mas caminho poéticos que, se encontram novas perspectivas, se dimensionam também a partir do estágio atual do trabalho.