Programa
DEPOIS DO DESMANCHE
Paulo Arantes
Quem porventura já entrou num desmanche de São Paulo algo saberá da matéria bruta em torno da qual gira a metáfora... Para alguns autores, a Era da Indeterminação em que ingressamos é este tempo político morto no qual giramos em falso justamente “depois do desmanche” do país. As datas variam. Creio que a expressão entrou para o vocabulário político, com sua óbvia carga de alusão delinqüente, não por acaso nos anos Collor. Referia-se tanto à nova agenda destrutiva do capitalismo quanto ao paradoxal desmonte e revenda peça por peça de uma economia nacional roubada e batida que nunca chegara a ser propriamente nova. A mesma lógica da desintegração aprofundou seu mecanismo de erosão nos dois períodos administrativos subseqüentes, corroendo suas menores células reprodutivas a ponto de se poder dizer que a sociedade brasileira não tem mais forma, embora continue inconfundível em sua identidade desagregada. Porém numa sociedade assim desmanchada, a anomia não vaza. Mesmo estando a vida literalmente pela hora da morte, saída de emergência é o que não falta... nessa nação adiada, e agora de uma vez por todas, o espantoso laboratório de uma sociedade enfim totalmente administrada. O círculo vicioso da saída de emergência – que se retroalimenta perenizando a insegurança inerente ao precário – vem a ser o que chamam gestão, o complexo gestionário que se instalou no vazio político deixado pelo Estado engolido pelo reino pré-histórico da mais rasa necessidade econômica. O que hoje se chama governo. Nunca houve tanto governo como agora, mas para que haja cada vez mais mercado, ao contrário dos tempos em que havia Estado por causa dos desmandos da mercadoria entregue a si mesma. Não se trata de uma gestão qualquer, mas da administração das populações e instituições sucateadas pelo desmanche, e cuja vulnerabilidade é um risco maior. Legitimado pelo poço sem fundo das urgências de toda ordem, o governo a um só tempo pastoreia o metabolismo social dos pobres docilizados e intensifica a escalada penal no lombo dos recalcitrantes. De desgraça em desgraça, vai funcionando muito bem. Nosso teatro de horrores é hoje uma coleção de best pratices saudada – surpresa – pelos gestores da famigerada governança mundial.
(Da “orelha” de A Era da Indeterminação, org. de Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, Boitempo Editorial)